Introdução
Quem entra em um terreiro de Umbanda e presencia uma gira costuma notar, além dos cantos e dos atabaques, desenhos traçados no chão ou em tábuas: linhas, setas, tridentes, estrelas, cruzes, âncoras e espirais. São os pontos riscados, uma das expressões mais características e ao mesmo tempo mais enigmáticas da religião.
Segundo Andrade Júnior (2015), os pontos riscados são marcantes e indispensáveis na Umbanda, enquanto o ponto cantado é a forma de chamar a entidade. Os dois formam um par: um é som, o outro é grafia.


O ponto riscado é um desenho simbólico feito pelo médium ou pelo chefe do terreiro, geralmente com pemba, um giz sagrado, e por isso ganhou o nome de "riscado". Funciona como a identificação de uma entidade espiritual (caboclo, preto-velho, exu, pomba-gira, erê, entre outros). Andrade Júnior (2014) destaca que os pontos são riscados com a pemba, objeto sagrado para a Umbanda, e que as entidades são identificadas não só pelo nome, mas também por seus pontos.
Em um texto de divulgação sobre a Quimbanda, o ponto é comparado a um documento de identidade: cada ponto seria uma espécie de DNA ou RG da entidade (LORENCINI, s.d.). É uma analogia popular, mais do que uma definição acadêmica, mas ajuda a entender a função do símbolo.
Em linhas gerais, o ponto riscado costuma cumprir três papéis, numa síntese baseada em Andrade Júnior (2015) e Lorencini (s.d.):
- Identificação: diz quem é a entidade e a que linha ou falange ela pertence.
- Comunicação: serve de canal entre o plano material e o espiritual durante a gira.
- Proteção e firmeza: delimita um espaço de trabalho e de segurança ritual.
Contexto: a Umbanda e sua pluralidade
A Umbanda é uma religião brasileira, cuja versão oficial costuma ser associada à incorporação do Caboclo das Sete Encruzilhadas em Zélio de Moraes, marco do nascimento oficial da religião (ANDRADE JÚNIOR, 2014). A data tradicionalmente lembrada para a fundação é 1908 (PAES; ASSUMPÇÃO, 2023), em Niterói (RJ).
Os pesquisadores, porém, alertam para a complexidade dessa origem. França e Gnerre (s.d.) propõem entender a Umbanda como resultado de um sincretismo visto como processo dinâmico de construção, e não como produto final estático, sem uma única origem para a religião. Por isso, segundo as autoras, seria mais adequado falar em "umbandas", no plural. Isso ajuda a explicar por que um mesmo símbolo pode ter leituras diferentes de um terreiro para outro.
Os elementos do ponto: uma gramática simbólica
Não existe um "dicionário" único e universal de pontos riscados. Cada casa, cada linhagem e cada entidade tem seus fundamentos, muitos transmitidos oralmente e guardados com reserva. As leituras abaixo são correntes na tradição umbandista, mas não decorrem de uma fonte única e variam entre casas:
- Setas e flechas: associadas a caboclos e à linha de Oxóssi (caça, mata, direção).
- Tridente: comum nos pontos de exus e pombas-giras; pode ser lido como poder sobre os três planos ou como proteção.
- Cruz e encruzilhada: o cruzamento dos caminhos, lugar de passagem e de trabalho de Exu.
- Estrela: harmonia e proteção; aparece em pontos de várias linhas.
- Âncora, coração, lua, sol, espada, folhas: ligados às características e aos campos de atuação de cada entidade.
Um exemplo de leitura acadêmica é a análise de França e Gnerre (s.d.), que partem do ponto riscado da Pomba-gira Menina. Segundo as autoras, o ponto traz entre seus elementos o tridente de Shiva (Trishula), e a semelhança com alguns Yantras da tradição shivaísta as levou a investigar trocas simbólicas possíveis entre a Umbanda e o universo hindu. As próprias autoras descrevem o trabalho como uma reflexão inicial, sem pretensão conclusiva: é uma hipótese de interpretação, e não uma origem comprovada.
Um registro artístico também ajuda a visualizar o símbolo. No quadro Umbanda, de Maria Auxiliadora da Silva, do acervo do MASP, o ponto riscado em estrela no piso é descrito como um pentagrama com cinco elementos (fogo, água, ar, terra e espírito), simbolizando harmonia, equilíbrio e proteção (PEDROSA, 2018).

Ponto riscado e ponto cantado
Os dois "pontos" têm funções complementares. O ponto cantado é entoado na gira, em geral acompanhado de percussão, para saudar, chamar ou despedir entidades (ANDRADE JÚNIOR, 2015). O ponto riscado é a sua forma gráfica. A tradição editorial umbandista registra essa relação em obras de grande circulação, como os livros intitulados 3000 pontos riscados e cantados na Umbanda e no Candomblé, mencionados por Andrade Júnior (2014).
Estudos regionais também se dedicam ao tema. Pereira (2012), por exemplo, analisa os significados presentes nos pontos cantados e riscados nos rituais da Umbanda em Fortaleza. Já Paes e Assumpção (2023) tratam os pontos de Zé Pelintra como expressão de resistência cultural africana, o que lembra que esses cantos e símbolos carregam histórias de povos escravizados, indígenas e europeus que se encontraram no Brasil.
Usos rituais e cuidados
Na prática dos terreiros, o ponto riscado costuma aparecer em situações como a abertura de trabalhos, quando o médium risca o ponto da entidade que vai incorporar ou que será chamada, e a firmeza e o assentamento. Sobre este último uso, Lorencini (s.d.) observa, no contexto da Quimbanda, que o desenho pode ser feito no chão do terreiro ou em tábuas, como ponto de comunicação com a entidade. Os detalhes variam conforme o fundamento de cada casa.
Três cuidados de ordem prática e ética, que aqui são orientações gerais e não afirmações de uma fonte específica:
- O ponto não é um "logotipo" para copiar. Muitos terreiros consideram que o fundamento de um ponto só deve ser riscado por quem foi preparado e orientado na casa.
- Variações são normais. O mesmo nome de entidade pode ter pontos diferentes em casas diferentes (FRANÇA; GNERRE, s.d.).
- Respeito à origem. Imagens e significados circulam muito na internet, mas a fonte confiável continua sendo o dirigente espiritual do terreiro e a pesquisa acadêmica séria.
Considerações finais
O ponto riscado é ao mesmo tempo assinatura, ferramenta ritual e linguagem simbólica. Ele sintetiza, em poucos traços, a mistura de tradições que forma a Umbanda e a diversidade interna que a caracteriza. Estudá-lo exige sensibilidade: trata-se de um elemento sagrado para os praticantes, que merece ser descrito com rigor e sem sensacionalismo.
Referências
- ANDRADE JÚNIOR, Lourival. Os caboclos nas religiões afro-brasileiras: hibridação e permanência. Mneme – Revista de Humanidades, Caicó, v. 15, n. 34, p. 224-240, jan./jun. 2014.
- ANDRADE JÚNIOR, Lourival. Pontos riscados e nominações: Exu em discussão. Mouseion, Canoas, n. 22, dez. 2015. DOI: 10.18316/1981-7207.15.14.
- FRANÇA, Dilaine Soares Sampaio de; GNERRE, Maria Lucia Abaurre. Um olhar sobre trânsitos simbólicos afro-indianos. Religare, Universidade Federal da Paraíba, [s.d.]. Disponível em: periodicos.ufpb.br/index.php/religare/article/view/28687.
- LORENCINI, Bruno. Kimbanda – Ponto Riscado. Substack, [s.d.]. Disponível em: brunolorencini.substack.com.
- PAES, Carla Regina Santos; ASSUMPÇÃO, Douglas Junio Fernandes. Resistência cultural africana religiosa nos pontos de Zé Pelintra. Projeto Memória, UNESP/Assis, v. 19, n. 1, jan./jun. 2023.
- PEDROSA, Adriano. Umbanda, de Maria Auxiliadora da Silva. In: MASP. Acervo. São Paulo, 2018. Disponível em: masp.org.br/acervo/obra/umbanda.
- PEREIRA, Linconly Jesus Alencar. A Umbanda em Fortaleza: análise dos significados presentes nos pontos cantados e riscados nos rituais religiosos. 2012. Dissertação (Mestrado em Educação Brasileira) – Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2012. Disponível em: repositorio.ufc.br.

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