1. Introdução: o que é o "banho de descarrego"
O termo "descarrego", na Umbanda e no Candomblé, designa o ato ritual de remover, por meio de banhos de ervas, orações e transmissão de energia, as cargas espirituais densas, os fluidos negativos ou as influências de espíritos de baixa luminosidade que aderem a uma pessoa. Na Umbanda, o banho de descarrego é considerado um instrumento importante para a manutenção do padrão vibratório do médium: este deve realizar banhos de descarrego quando necessário, conforme as exigências do seu Orixá e dos seus guias .
É preciso distinguir, quanto à finalidade, o banho de descarrego do "amaci" (banho de afinação/fortalecimento). O primeiro visa "descarregar"; o segundo, "nutrir" e "firmar". A literatura umbandista indica que o banho de descarrego é feito normalmente dos ombros para baixo, até os pés, sem tocar a cabeça, salvo orientação específica do guia . Essa fronteira corporal constitui, em si, uma "lógica de proteção" ritual: a cabeça é considerada a região sagrada diretamente ligada ao Orixá e não deve ser tocada indiscriminadamente em operações de descarrego .
Rivas Neto (1999), citado por Silva, explica que a finalidade precípua do banho de descarga é "deslocar ou eliminar as cargas negativas que ficam agregadas na aura do corpo etérico do indivíduo", causadas tanto por emissões mentais negativas de outras pessoas (inveja, ódio, ciúmes) quanto pela atuação de seres espirituais desencarnados com "corpos astrais pesados" .
2. Ervas e elementos: a atribuição energética por trás da matéria
2.1 Arruda: a erva forte contra o "olho-grande"
A arruda é uma das ervas mais utilizadas na Umbanda. É classificada como "erva forte", de odor intenso, empregada sobretudo contra fluidos negativos, inveja e "olho-grande" (mau-olhado), sendo também comum em rituais de bênção. No sistema de atribuição energética da Umbanda, a arruda pertence a Oxóssi — o Orixá das matas e da caça . Essa atribuição não é arbitrária: Oxóssi governa as coisas da floresta, e a arruda, com seu odor volátil e intenso, expressa materialmente o "dispersar a partir do exterior" aquilo que invade.
Na prática do banho de descarrego, a arruda costuma ser combinada com outras ervas. Um registro de pesquisa na Bahia indica que a receita tradicional local de banho de descarrego inclui folhas de alho, arruda, guiné-píupiu e alecrim-do-mato, destinados a "limpar a alma e descarregar energias negativas" (Félix, 1965) . Lacerda (1999), por sua vez, prescreve uma composição com arruda, guiné, alecrim, abre-caminho, catinga de mulata e sal grosso, a ser tomada na lua minguante, em uma segunda-feira, à noite . Vale notar que o guiné aparece repetidamente, em diversos registros de prática umbandista, no contexto do descarrego; sua combinação com a arruda constitui uma estrutura sinérgica de "dispersão—limpeza".
2.2 Sal grosso: o "absorvedor" de energia
O sal grosso desempenha um papel singular no banho de descarrego umbandista. Não é considerado erva, mas um condutor elementar. A literatura afirma explicitamente que o sal grosso "absorve" o excesso de carga, sendo um excelente condutor, geralmente diluído em água e derramado do pescoço para baixo sobre o corpo (Azevedo, 2009; Martins, 2014) . Na lógica ritual, a estrutura cristalina do sal recebe a função de "capturar e fixar" os fluidos negativos, complementando a função "dispersante" das ervas.
2.3 Outras ervas frequentes e suas atribuições
Além da arruda, as ervas frequentemente presentes no banho de descarrego umbandista incluem:
Cabe notar que a relação entre erva e Orixá não é absolutamente exclusiva. Um estudo etnobotânico de terreiros de Umbanda aponta que uma mesma erva é frequentemente atribuída a vários Orixás; a explicação dos praticantes é que "todos os Orixás usam essa erva, mas cada um tem sua particularidade — a energia em si é a mesma" .
3. Procedimento ritual e elementos complementares
Na compreensão umbandista, a eficácia do banho de descarrego não provém isoladamente das ervas. A literatura e os registros etnográficos convergem ao enfatizar a necessidade de intenção, oração e atos rituais complementares.
Segundo os guias práticos da Umbanda, o banho de descarrego deve ser realizado após o banho de higiene: primeiro o banho comum, depois, no box do chuveiro, a infusão de ervas é derramada do pescoço para baixo, por todo o corpo. Durante o processo, deve-se manter pensamentos positivos e recitar orações, a fim de "expulsar as energias negativas que o cercam". O resíduo de ervas usado pode ser descartado normalmente, no lixo . Lacerda (1999), porém, recomenda que as ervas usadas não sejam jogadas no lixo, mas colocadas em algum lugar natural (terra, jardim, quintal), e que a água do banho seja despejada suavemente .
Em cenários rituais mais complexos, o banho de descarrego pode ser combinado com defumação, demarcação com pemba e transmissão de energia por médiuns auxiliares. Um registro etnográfico da Revista Afro-Ásia descreve o rito mais simples: o paciente fica descalço sobre um pano branco enquanto um médium graduado o golpeia levemente no peito, nas costas e nas pernas com um ramo de planta consagrada, rezando ao mesmo tempo. Por vezes, o próprio autor do "sacudimento" acusa tonturas, arrepios e dores de cabeça — sinais de que "a carga estava muito forte" . Há ainda formas mais complexas, com pontos riscados no chão, linhas de pólvora, médiuns em fila transmitindo energia e, em casos extremos, sacrifícios rituais .
A literatura umbandista também aponta interdições e limites: o banho de descarrego "deve ser indicado pelo guia protetor, seguindo suas orientações e observações"; antes e durante o banho, devem-se fazer orações ou entoar os pontos da falange correspondente. Receitas elaboradas por conta própria, sem a orientação do guia, não são recomendadas no quadro normativo da Umbanda tradicional .
4. Considerações finais
O banho de descarrego na Umbanda é uma prática composta que tem na atribuição energética o critério de escolha, na fronteira corporal a norma operacional e na oração e nos rituais complementares a garantia de eficácia. As ervas não são, aqui, "materiais naturais" arbitrários, mas substâncias rituais portadoras de atributos energéticos dos Orixás e de orientações funcionais específicas. A arruda atribuída a Oxóssi, o sal grosso como condutor absorvente, a múltipla atribuição do alecrim — esses "fundamentos" constituem a gramática básica da fitoterapia umbandista.
Para o pesquisador, a chave para compreender o banho de descarrego está em abandonar a concepção simplificada de "banho de ervas = plantas em água" e passá-lo a ver como uma tecnologia ritual em que matéria, energia e linguagem atuam de modo sinérgico. As ervas fornecem a base material e a orientação energética; a água, como meio, transmite; a oração e a intenção completam a conversão do "contato físico" em "operação espiritual".
Uma referência sobre as ervas e seus usos está disponível no artigo "A etnobotânica do terreiro Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge, Teixeira de Freitas, Bahia, Brasil" http://dx.doi.org/10.33448/rsd-v12i2.40317
Referências
1. TUMA – Tenda Umbandista Miguel Arcanjo. Materiais de Estudo, 2023. Disponível em: https://mapa.cultura.gov.br/files/space/42307/tuma-materiais-de-estudo-2023.pdf. Acesso em: 29 out. 2026.
2. AFRO-ÁSIA (Revista). Registro etnográfico sobre descarrego na Umbanda. Afro-Ásia, UFBA. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/afroasia/article/download/21013/13613/0. Acesso em: 29 out. 2026.
3. GARCIA, Célio de Pádua. [Tese], PUC Goiás. (Contém quadro comparativo com Cain 2012, Azevedo 2009, Martins 2014 sobre arruda e sal grosso). Disponível em: https://tede2.pucgoias.edu.br/bitstream/tede/775/1/CELIO%20DE%20PADUA%20GARCIA.pdf. Acesso em: 29 out. 2026.
4. SILVA, Cilma Laurinda Freitas e. [Dissertação sobre ervas na Umbanda], PUC Goiás. (Cita Rivas Neto 1999 e Lacerda 1999). Disponível em: https://tede2.pucgoias.edu.br/bitstream/tede/839/1/CILMA%20LAURINDA%20FREITAS%20E%20SILVA.pdf. Acesso em: 29 out. 2026.
5. FÉLIX (1965), apud [Pesquisa sobre banhos de descarga]. Registro da receita "Pau de alho, Arruda, guiné píupiu, Alecrim do mato". Disponível em: https://saberaberto.uneb.br/bitstreams/b180c842-152c-48e4-819f-3a9d806b2d26/download. Acesso em: 29 out. 2026.
6. [Estudo etnobotânico sobre plantas e Orixás na Umbanda]. Atribuição múltipla do alecrim. Research, Society and Development, 2023. DOI: 10.33448/rsd-v12i2.40317.
7. [Estudo sobre terapeutas populares no Recôncavo Baiano]. SciELO. Disponível em: https://qa1.scielo.br/j/ra/a/KCVvzK9CkTpP56hRFKVxrrr/?format=html&lang=pt. Acesso em: 29 out. 2026.
8. EDITORA ECO. Banhos de Descarga e Amacis. (Obra clássica de 1965, reeditada em 2007; sinopse indica a regra "dos ombros aos pés, sem tocar a cabeça").
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