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A Linha dos Pretos Velhos na Umbanda: Estrutura Organizacional, Simbolismo e Referências

A linha dos Pretos Velhos na Umbanda, com foco em sua organização estrutural, seus desdobramentos internos e o simbolismo que sustenta sua autoridade ritual.

A Linha dos Pretos Velhos na Umbanda: Estrutura Organizacional, Simbolismo e Referências

1. Introdução: uma linha central e ainda pouco sistematizada

Na paisagem religiosa da Umbanda, os Pretos Velhos ocupam uma posição singular. São compreendidos como espíritos de africanos escravizados que, ao desencarnar, passaram a trabalhar espiritualmente sob a aparência de velhos curvados, de fala lenta e "africanizada", fumando cachimbo e oferecendo conselhos sentados em bancos baixos. A aparente simplicidade dessa imagem esconde, porém, uma linha de entidades com lógica organizacional própria, divisões internas significativas e um simbolismo denso. Este artigo busca responder a duas questões: como a linha dos Pretos Velhos se organiza dentro da estrutura ritual da Umbanda? E como sua imagem simbólica se articula com a memória da escravidão e com a construção de autoridade religiosa?


2. Estrutura organizacional: hierarquia, diferenciação e lógica de trabalho

2.1 Posição na estrutura das linhas

Na classificação das entidades umbandistas, os Pretos Velhos costumam ser situados na Linha das Almas (também chamada de sétima linha). Segundo registros doutrinários, essa linha seria composta por "espíritos que receberam a incumbência de combater todas as manifestações do mal", os quais "vestem a roupagem de preto velho" e transmitem as verdadeiras "mirongas" — sendo considerados "mestres da doutrina, da filosofia e da magia". Na prática ritual, os Pretos Velhos ocupam um lugar funcionalmente distinto dos caboclos e das crianças: enquanto os caboclos tendem à força e ao combate e as crianças à alegria e à pureza, os Pretos Velhos assumem o papel de consultores, conselheiros e especialistas em magia de cura, atuando tipicamente em "giras" próprias, com atendimento individualizado.

2.2 Diferenciação interna: "alma pura" e "traçado"

A linha dos Pretos Velhos não é monolítica. A literatura acadêmica registra uma distinção central: o "preto velho alma pura" e o "preto velho traçado". O primeiro trabalha exclusivamente para o bem, apenas nas linhas da Umbanda; o segundo está associado a Exu, tendo uma natureza "meio preto velho, meio Exu", podendo atuar na Quimbanda ou na "Umbanda traçada", inclusive em trabalhos de "vingança". Um pai de santo entrevistado em pesquisa de campo sintetiza essa lógica: "o preto velho traçado, na Umbanda, nunca vai fazer o mal com as próprias mãos; ele te manda procurar Exu ou Pomba Gira para fazer a parte ruim".

Essa diferenciação revela que a organização da linha não se funda em uma oposição rígida entre bem e mal, mas em uma divisão funcional por campo de atuação ritual. A literatura menciona ainda subcategorias como o "preto velho feiticeiro" — descrito como "versado em mandingas, feitiços e encantamentos" — e o "preto velho curador", voltado às ervas e benzeções. A coexistência dessas variantes indica que a "estrutura" da linha é menos uma hierarquia fixa e mais um conjunto de variações de um arquétipo, modulado conforme a tradição de cada terreiro.

2.3 O modo de trabalho e sua materialidade

O trabalho dos Pretos Velhos tem forte dimensão material. Eles "gostam de trabalhar sentados e de atender consultas, fumando cachimbo, sempre fazendo, pela fumaça, o trabalho de fixação e de descarrego". A fumaça do cachimbo é investida de dupla função — purificação e fixação. Além disso, são reconhecidos como mestres das ervas e dos benzimentos, "excelentes mandingueiros, mestres dos elementos da natureza". Essa tecnologia do corpo — postura sentada, cachimbo, ervas, fala pausada — constitui o que distingue os Pretos Velhos de outras linhas e explica sua posição estrutural no espaço ritual: o "balcão de consultas", e não o "campo de batalha".


3. Simbolismo: da memória traumática à autoridade moral

3.1 A compositeidade da imagem

A figura visual do Preto Velho — negro idoso e curvado, cabelos brancos, cachimbo, banco baixo — é altamente reconhecível no imaginário brasileiro. A pesquisa acadêmica aponta que essa imagem combina múltiplas fontes culturais: o "Pai João" da literatura e do folclore (submisso, humilde, bondoso), a "Mãe Preta" (mãe devota), o "negro feiticeiro", o "escravo doméstico", o "velho contador de histórias", o "negro convertido ao cristianismo" e o "guerreiro quilombola fugido". Essa compositeidade significa que o Preto Velho não é uma reprodução simples do escravo histórico, mas uma construção cultural que passa pelo crivo da imaginação religiosa.

3.2 A memória da escravidão e sua conversão religiosa

Os Pretos Velhos são compreendidos pelos fiéis como espíritos de "antigos escravizados" e, por isso, "incorporam e encarnam, em nível epistemológico, a memória do período traumático da escravidão". O modo dessa incorporação, contudo, opera uma inversão ética: os Pretos Velhos são apresentados ritualmente como "sem raiva ou ódio pelas humilhações, atrocidades e torturas sofridas no passado". Academicamente, isso é lido como um mecanismo de sublimação da memória traumática — a dor convertida em compaixão e sabedoria, oferecendo aos fiéis um recurso simbólico para lidar com a injustiça histórica sem convertê-la em mobilização política. Nas palavras de uma pesquisadora, os Pretos Velhos funcionam como "vozes da memória coletiva" que "nos convidam a olhar para o passado e refletir sobre a transformação que ele pode inspirar no presente".

3.3 A fonte da autoridade moral

A autoridade do Preto Velho não deriva de força ou coerção, mas do capital moral acumulado pelo sofrimento. Acredita-se que, embora apresentados como "analfabetos", são "repletos de qualidades morais, e é dessas qualidades que emana a força e a autoridade de seus conselhos". No ritual, essa autoridade se corporifica no sentar-se e falar: o Preto Velho não se levanta, não brande armas, não grita — fala devagar, em português "africanizado", e aconselha. Essa autoridade de baixa postura contrasta com a postura ereta e combativa dos caboclos, configurando uma forma própria de poder no espaço ritual umbandista.


4. Origem e Criação da Praça do Preto Velho

A Praça do Preto Velho, em Campo Grande (MS), é um espaço público criado em 1995 para homenagear as religiões de matriz afro-brasileira e ameríndia. Sua origem está diretamente ligada à doação de uma escultura e à atuação da Federação dos Cultos Afro-Brasileiros e Ameríndios de Mato Grosso do Sul (FECAMS), em um contexto de resistência cultural e religiosa na cidade.

A praça foi oficialmente criada pela Lei Municipal nº 3.141, de maio de 1995, durante a gestão do então prefeito Juvêncio César da Fonseca . Naquele mesmo ano, a FECAMS doou à prefeitura a escultura do Preto Velho, que deu nome e identidade ao local . A estátua foi inaugurada em 13 de maio de 1995, data simbólica por marcar o aniversário da Abolição da Escravatura no Brasil 

A obra é uma homenagem às culturas africanas e um símbolo de resistência aos preconceitos enfrentados por esses povos na capital sul-mato-grossense . A criação da praça é lembrada pela FECAMS como um marco de "pioneirismo" e "coragem" dos que se empenharam no projeto em uma realidade mais turbulenta para as religiões de matriz africana .



5. Considerações finais

A organização da linha dos Pretos Velhos na Umbanda revela um sistema elástico, centrado em arquétipos e diferenciado por função. Não se trata de uma hierarquia militarizada (como em certas narrativas sobre a linha de Exu), nem de pura dispersão oral: a distinção entre "alma pura" e "traçado" expressa a relação historicamente tensa e permeável entre Umbanda e Quimbanda. No plano simbólico, a figura do Preto Velho converte a memória da escravidão em autoridade moral fundada na compaixão e na paciência, transformando a vítima histórica em conselheira reverenciada. Essa operação de conversão simbólica ajuda a explicar por que a linha dos Pretos Velhos desfruta de uma das maiores afinidades populares entre todas as linhas de entidades da Umbanda.


Referências

  • SANTOS, Edson Carneiro Machado. A construção simbólica de um personagem religioso: o preto velho. Revista TOMO, [S. l.], n. 11, 2007. Disponível em: https://periodicos.ufs.br/tomo/article/view/452. Acesso em: 22 out. 2026.

  • REZENDE, Lívia Lima. Dialogando com os mortos: um estudo de história oral com os pretos-velhos umbandistas. Zenodo, 21 nov. 2024. DOI: 10.5281/zenodo.14194942. Disponível em: https://zenodo.org/records/14194942. Acesso em: 22 out. 2026.

  • MOLINA, N. A. Livro de Feitiços de Preto Velho. [S. l.]: Editora Espiritualista, [s. d.]. ISBN 9788561365363.

  • LIMA REZENDE, Lívia. Força africana, força divina: trânsitos entre África e Brasil através da figura umbandista dos pretos-velhos. Mosaico, Rio de Janeiro, v. 7, n. 10, p. 96–120, nov. 2016. DOI: 10.12660/rm.v7n10.2016.64729. Disponível em: https://periodicos.fgv.br/mosaico/article/view/64729. Acesso em: 22 out. 2026.

  • REZENDE, Lívia Lima. Quando riem os mais velhos, eles libertam o mundo: narrativas sobre a escravidão em terreiros umbandistas de São João del-Rei (Brasil) e Montevidéu (Uruguai). Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2022. Disponível em: https://www2.ufjf.br/ppghistoria/wp-content/uploads/sites/157/2022/03/Tese-completa-Livia-Lima-Rezende-1.pdf. Acesso em: 22 out. 2026.

  • Sobre Ortiz: A referência correta é: ORTIZ, Renato. A morte branca do feiticeiro negro: umbanda e sociedade brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1991. A indicação anterior ("UFU") estava equivocada.